Centro Rosacruz Max Heindel
Introdução
Há três perguntas que desde sempre têm perseguido o ser humano:
quem somos? de onde viemos? para onde vamos? Se a esmagadora maioria desconhece as respostas, houve sempre quem as conhecesse e as
transmitisse àqueles que, para tal, estavam preparados física, moral, intelectual e espiritualmente, enfim, que tenham evoluído o suficiente para usarem os poderes associados a esse conhecimento para fins exclusivamente humanitários. Assim se foram formando, um pouco por toda a parte, escolas de mistérios sob a égide de grandes seres que transmitiam determinados conhecimentos a indivíduos cuidadosamente escolhidos, enquanto que às massas ofereciam o culto das forças da Natureza, personificadas em deuses, espíritos, duendes, demónios; eram as chamadas religiões pagãs que foram parcialmente absorvidas pelas religiões de raça.
Algumas escolas ficaram famosas, como Elêusis, na Grécia, Ísis, no Egipto, Mitra, na Pérsia e no Império Romano, através das quais os aspirantes iam progredindo por sucessivas iniciações. Com a vinda do Cristo, estas escolas foram desaparecendo e dando lugar a outras com diferentes metodologias iniciáticas ditadas pelas alterações que, a nível dos mundos espirituais, este Ser introduziu na Terra, conforme vimos; por outro lado, enquanto as escolas pré-cristãs privilegiavam a evolução do povo, ou da raça, em que estavam inseridas, as actuais visam a evolução espiritual de toda a humanidade, muito embora se diferenciem consoante a especificidade dos povos para que estão mais vocacionadas.
Há sete escolas de mistérios menores e cinco escolas de mistérios maiores, formando os seus chefes a chamada Grande Loja Branca. A Ordem Rosacruz é uma das sete escolas de mistérios menores e está vocacionada para os povos ocidentais; é constituída por doze seres detentores da mais elevada iniciação, que visam elevar espiritualmente o ser humano através do desenvolvimento harmonioso da via ocultista e da via mística; a sua acção é exercida nos planos espirituais e físico, sob a orientação de um décimo terceiro, Christian Rosenkreuz, nome simbólico de um elevado ser cuja preparação iniciática remonta à mais alta antiguidade, e que no século XIII criou as bases da inicialmente chamada Fraternidade, ou Irmandade, Rosacruz, e que no século XVII iria adoptar a actual designação.
Sete Irmãos Maiores, como Max Heindel costuma designar os Rosacruzes, vêm ao mundo material sempre que as circunstâncias o requeiram, aparecendo como pessoas vulgares, exercendo profissões ou actividades vulgares, nada havendo que os distinga dos outros homens a não ser um comportamento exemplar e uma inteligência e cultura acima do normal. Actuam nos seus corpos visíveis e invisíveis, mas nunca influenciam quem quer que seja contra a sua vontade; limitam-se a fortalecer o Bem onde o encontram. Os restantes cinco Irmãos nunca abandonam o Templo da Rosa Cruz, uma construção etérica, invisível portanto, que envolve uma casa senhorial situada na Boémia, a cerca de 100 quilómetros a oeste de Praga. Estes Irmãos, embora possuam corpos físicos, executam o seu trabalho nos mundos espirituais.
Estes são os verdadeiros Rosacruzes, que nunca revelam a sua condição a quem quer que seja, e que orientam diversos homens e mulheres cujas vidas são absolutamente normais, mas que já atingiram diferentes iniciações; são os Irmãos Leigos.
A Ordem Rosacruz manteve-se secreta até 1614, ano em que, em Cassel, na Alemanha, foi publicado um manifesto intitulado Fama Fraternitatis - abreviatura já consagrada do extenso título original - que despertou grande interesse nos meios filosóficos e esotericistas e um certo receio nos religiosos; no ano seguinte foi publicado um outro, Confessio, e em 1616, agora em Estrasburgo, um terceiro manifesto, um conto alquímico, verdadeiro märchen, intitulado Núpcias Químicas de Christian Rosenkreuz no ano de 1459. Os dois primeiros são anónimos, mas a sua autoria é normalmente atribuída ao pastor luterano Johann Valentin Andreæ (1586-1654) por ser o autor assumido das Núpcias Químicas. Em 1622, desta vez em Paris, dois cartazes afixados na Praça da Greve anunciavam a estada visível e invisível dos delegados do Colégio Principal dos Irmãos da Rosacruz, prometendo maravilhas àqueles que quisessem inscrever-se nos registos da Confraternidade e cujos pensamentos, que os delegados garantiam conhecer de antemão, fossem puros e elevados.
Depois desta apresentação pública, a Ordem Rosacruz remeteu-se, novamente, ao silêncio, mas a sua presença e actividade fez-se sentir através de diversas personalidades que, embora ocultando a sua condição, se revelaram verdadeiros Rosacruzes: é o caso de Francis Bacon (1561-1626 ?), Jacob Boehme (1575-1624), o Conde de Saint Germain (1687 ? - 1784 ?), "o homem que tudo sabe e que nunca morre", no dizer de Voltaire, Goethe (1749-1832), e outros, como fora já o do famoso Paracelsus (1493-1541).
Por outro lado, há Irmãos Leigos que têm sido escolhidos pelos Irmãos Maiores para difundirem determinados ensinamentos. Está neste caso Max Heindel (1865-1919), um dinamarquês que emigrou para os EUA no final do século XIX e que, cinco ou seis anos depois, entrou para a Sociedade Teosófica. Em 1907, com o apoio económico de uma grande amiga, também teosofista, foi à Alemanha para assistir às conferências de Rudolf Steiner, outro teosofista e iniciado rosacruciano. Durante cerca de meio ano, Max Heindel assistiu às suas conferências, estudou todos os textos que Steiner lhe facultou, e foi por este introduzido numa secção secreta da Escola Esotérica de Teosofia. Ainda na Alemanha, Max Heindel foi iniciado por um Irmão Maior que o incumbiu de difundir tudo o que havia aprendido pelo mundo anglófono.
Regressado aos EUA, Max Heindel abandonou a Sociedade Teosófica e escreveu o Conceito Rosacruz do Cosmos, publicado em 1909, que conheceu, de imediato, um enorme sucesso. Foi o primeiro passo para difundir esses ensinamentos; o seguinte foi a criação da Fraternidade Rosacruz, uma organização material, física, cuja sede, Mount Ecclesia, se situa em Oceanside, no sul da Califórnia, e que tem sido um foco de difusão do Rosicrucismo através de outros livros que Max Heindel escreveu, bem como das cartas e lições que enviou, mensalmente, aos seus estudantes, e aos centros e grupos de estudos que se foram criando. Após a sua morte em 1919, a Fraternidade Rosacruz tem procurado prosseguir o trabalho do seu fundador.
Por me parecer de interesse, incluo uma breve referência ao nosso país.
Os primeiros sinais da presença no ainda Condado Portucalense da corrente de pensamento que a partir do século XVII ficaria conhecida como Rosacrucianismo, são as assinaturas do Conde D. Henrique (-1112), D. Teresa (-1130) e Afonso Henriques (c.1108-1185), onde se evidenciam uma cruz e uma rosa (cf. Eduardo Amarante/Rainer Daehnhardt, Portugal: A Missão Que Falta Cumprir, vol. I, Porto, Edições Nova Acrópole, 1994, pp. 114-116).
Na presunção, para não dizer certeza, de que os Templários estiveram na origem da Ordem Rosacruz, há que apontar a possibilidade de um dos primeiros cavaleiros ter sido português; trata-se de um tal Gondomar, ou Gondemar, que em 1118 estava em Jerusalém com Hugues de Pays, Geoffroy de Saint-Omer e os restantes seis cavaleiros, quando a Ordo Militum Templi foi oficialmente constituída.
O sinal seguinte data de 1129; trata-se da confirmação da doação do Castelo de Soure aos “Soldados do Templo de Salomão”, onde D. Afonso Henriques exprime o “... cordial amor que vos tenho, em vossa irmandade e em todas vossas boas obras sou irmão”.
Nos princípios do século XIV temos duas datas fundamentais:
1312, ano da extinção formal da Ordem do Templo, e 1319, ano da fundação da Ordem de Cristo por D. Dinis, um trovador e iniciado nos mistérios que mais tarde se denominariam Rosicrucistas, um “plantador de naus a haver”, no dizer de Fernando Pessoa. Como se sabe, a epopeia dos Descobrimentos ficou a dever-se à Ordem de Cristo, da qual o Infante D. Henrique (1394-1460) foi seu grão-mestre ou, pelo menos, administrador. Ora entre alguns estudiosos dos mistérios que envolvem a Ordem do Templo há a convicção de que os Templários foram experimentados navegadores que chegaram ao Novo Mundo muito antes de Cristóvão Colombo (1492), o que explicaria a origem do seu fabuloso tesouro em prata, provavelmente extraída das minas mexicanas. Assim, teria sido dos Templários que o Infante herdou os conhecimentos náuticos com que a sua escola preparou os nossos navegadores, quase todos iniciados na Ordem de Cristo.
No Convento de Cristo, em Tomar, há dois sinais inequívocos do Rosicrucismo: no piso inferior do chamado Claustro da Lavagem (1437 a 1449) e que seria, na verdade, a sala onde tinham lugar cerimónias iniciáticas, as pedras angulares estão decoradas com uma rosa sobreposta a uma cruz; na parte interior da janela da Casa do Capítulo, o elemento decorativo é a alcachofra, uma flor cheia de simbolismo e que, de certo modo, estabelece um traço de união entre os Templários e a rosa dos Rosacruzes. No século XVI é Camões a grande figura, se não do Rosicrucismo,pelo menos do esoterismo em Portugal, conforme se depreende de uma leitura atenta de Os Lusíadas e de alguns dos seus sonetos onde sobressai, para além de uma grande cultura, um conhecimento profundo da Astrologia e da simbólica da mitologia clássica. Sobre este assunto, e
para não me alongar demasiado, recomendo a leitura de uma série de excelentes artigos escritos por Francisco Marques Rodrigues para a revista Rosacruz, da Fraternidade Rosacruz de Portugal, e a correspondente secção do meu livro A Ordem Rosacruz (Mem Martins, Publicações Europa-América, 1981, pp. 105-115).
Nos três séculos seguintes não tenho conhecimento de figura alguma que possa ser identificada, ou relacionada, com o Rosacrucianismo.
Nos anos vinte do século passado, foi criado em Lisboa, por iniciativa de Francisco de Medeiros, o Centro de Estudos Rosacrucianos, o qual passou a ser dirigido por Francisco Marques Rodrigues desde meados da década de quarenta até à sua morte em 1979; em 19 de Julho
de 1975, graças ao 25 de Abril, pôde ser legalizado com a designação Fraternidade Rosacruz de Portugal.
Entretanto uma dissensão anterior tinha dado origem à criação do Centro Rosacruciano de Lisboa que se manteve em funcionamento durante alguns anos até que outra dissensão ditou o seu encerramento e a formação, em 1984, do Centro Rosacruz Max Heindel, presentemente a funcionar em Minde. De referir a existência de alguns estudantes que, por razões diversas, nomeadamente a localização das suas residências, não se encontram ligados a nenhum destas duas associações e prosseguem os seus estudos directamente com Mount Ecclesia.
António Monteiro
Introdução
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Reflexões dum Estudante Rosacrucista