INTRODUÇÃO
De acordo com os evangelhos canónicos e alguns apócrifos, Cristo realizou numerosos “milagres”, principalmente curas, mas os mais notáveis foram os das “ressurreições”; porém, enquanto os apócrifos narram um número considerável de “milagres” desta natureza, como o Evangelho de Nicodemus, o Evangelho do Pseudo-Tomé e outros, os canónicos apenas dão fé de dois: o da filha de Jairo e o de Lázaro; o primeiro é narrado pelos três sinópticos (Mt 9, 18-26, Mc 5, 22-23, 35-42 e Lc 8, 49-56) e o segundo por Lucas (7, 11-17) e por João (11, 1-44).
Lucas não cita o nome de Lázaro, limitando-se a dizer que Cristo, ao dirigir-se a Nain [1] com os seus Discípulos e uma grande multidão, se deparou com um cortejo que levava um defunto a sepultar, filho único de sua mãe que era viúva, e a acompanhá-la vinha muita gente; Jesus compadeceu-se (...) tocou no caixão (...) e disse: ‘Jovem, Eu to digo: Levanta-te’. O morto sentou-se e começou a falar. E Jesus entregou-o à sua mãe. Este “milagre” da “ressurreição” do filho da viuva de Nain, como é vulgarmente designado, é o mesmo do de Lázaro, como, aliás, nos diz Max Heindel [2]; de facto,
? ambos são filhos da viúva; Lázaro era uma reencarnação de Hiram Abiff [3], logo, um filho da viúva;
? ambos são já iniciados; Lucas fala em Nain, uma palavra que, mais do que um topónimo, era usada pelos Hebreus para designar os iniciados [4]; Lázaro era um iniciado, como veremos quando fizermos a interpretação do relato de João;
? ambas as “ressurreições” tiveram lugar em um sepulcro;
? ambas foram levadas a cabo publicamente, ao contrário da da filha de Jairo, um facto de grande significado, como iremos explicar;
? em ambos os episódios Jesus compadeceu-se, outro facto extremamente importante, como veremos.
Este “milagre” foi também contado por Marcos, mas no seu Evangelho Secreto, referido por Clemente de Alexandria (sec. II) numa carta, da qual uma cópia, feita no século XVIII, foi descoberta em 1958 por Morton Smith, teólogo da Universidade de Colômbia, EUA, no mosteiro de Mar Saba, a sul de Jerusalém; infelizmente apenas dois fragmentos constam dessa carta, um dos quais, o mais extenso, conta o milagre da “ressurreição” do jovem de Betânia que tudo indica ser Lázaro [5].
Dado o seu âmbito cósmico e riqueza simbólica, é o relato da “ressurreição” desta personagem, feito por João no seu evangelho canónico, que me proponho interpretar à luz dos Ensinamentos Rosacruzes, para o que me socorri, naturalmente, de Max Heindel e Rudolf Steiner, entre outros. Mas estes dois autores apenas nos deram a sua interpretação da simbologia essencial do “milagre”, desprezando, ou tratando superficialmente, muitos pormenores que encerram símbolos, alguns de extraordinária riqueza; assim, achei por bem fazer a análise interpretativa do relato completo deste sinal do céu, como João prefere designar os “milagres”.
Antes, porém, e para esclarecer o porquê de algumas das leituras da minha lavra, devo fazer umas breves referências a João e a algumas passagens do seu evangelho.
JOÃO
O mais antigo testemunho de que o autor do quarto evangelho é o Apóstolo João remonta aos finais do século I, princípios do II, e foi prestado por um dos seus discípulos em Éfeso, de nome Policarpo (69 d.C. - 155), que o evangelista ordenou bispo de Esmirna e cujo martírio na fogueira assinala o fim da Era Subapostólica na Ásia.
Policarpo contou a vida de João a Santo Irineu (c. 140-202), bispo de Lion, o qual escreveu em Adversus Haereses, III, i, 1 (180) o seguinte: “Depois (isto é, a seguir a Mateus, Marcos e Lucas) João, o discípulo do Senhor que repousou sobre o peito d’Ele, publicou, por sua vez, um Evangelho enquanto morava em Éfeso, na Ásia”, onde viveu - acrescentou Santo Irineu - no tempo do imperador Trajano (98-117) e faleceu em 102, com uma idade muito avançada, pelo que era cognominado o “Ancião”. Este testemunho tinha já sido avançado por Justino Mártir (c. 100-c. 163), ao afirmar, na sua apologia Diálogo com o Judeu Trifon, cap. 81, que o autor do quarto evangelho fora João, um dos Apóstolos de Cristo, que viveu em Éfeso.
Porém, logo na época surgiram opiniões divergentes, principalmente por parte dos Montanistas, que atribuíram a autoria deste evangelho a Cerinto, um herege montanista, gnóstico e ebionita [6]. Mas a partir do século III vingou a ideia inicial favorável ao Apóstolo João, até que em 1820, na Alemanha, Bretschneider levantou a chamada Questão Joanina, segundo a qual o autor teria sido um outro João, o Presbítero, e não o Apóstolo [7].
Acontece, porém, que a minha intuição “divinatória” me leva a preferir o testemunho de São Policarpo, intuição esta que me leva a admitir que o penúltimo versículo deste evangelho, É esse o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e nós sabemos que o seu testemunho é verdadeiro (21, 24), haja sido acrescentado por um copista e, a seguir por outros, todos animados com a louvável finalidade de garantir a veracidade de tudo quanto esse discípulo dera testemunho.
João nasceu em Betsaída, filho de Zebedeu e Salomé, e irmão de outro apóstolo, Tiago Maior, tendo o zelo de ambos merecido o nome que Cristo lhes deu, Boanerges, isto é, Filhos do Trovão (Mc 3, 17). Tal como os seus familiares era pescador, e fazia parte do círculo de João Baptista quando do chamamento de Cristo; nunca casou e era virgem [8], o que significa, simbolicamente, que satisfez os preceitos iniciáticos da Igreja de Éfeso a que ele próprio se iria referir no Apocalipse (2, 1-7).
João atingiu uma posição cimeira no corpo apostólico: com Pedro e Tiago, seu irmão, foi testemunha ocular de alguns eventos da maior importância, como a “ressurreição” da filha de Jairo, a Transfiguração (Mt 17,1) e a agonia em Getsemani (Mt 26, 37); na Última Ceia ficou à direita de Cristo, como nos mostra Leonardo Da Vinci, e inclinou-se sobre o seu peito (Jo 13, 25); foi o único discípulo que assistiu à crucificação e o escolhido por Jesus para cuidar de sua mãe (Jo 19, 25-27); foi o primeiro a crer na ressurreição de Cristo e a reconhece-lo quando apareceu no lago de Genesaré, no corpo vital de Jesus.
Depois da Ascensão e da vinda do Espírito Santo, João, juntamente com Pedro, desempenhou um papel proeminente na criação e orientação da Igreja: vemo-los na cura do coxo no Templo (Ac 3, 1-11), na prisão (Ac 4, 3), na visita aos convertidos da Samaria (Ac 8, 14), etc.
João manteve-se na Palestina cerca de doze anos até que a perseguição de Herodes Agripa I (10 a.C.- 44 d.C.), que levou muitos discípulos à morte, como seu irmão Tiago (Ac 12, 1-17), o obrigou a procurar refúgio na Ásia Menor, tendo-se fixado em Éfeso, juntamente com a Virgem Maria [9].
Cerca do ano 51, João foi a Jerusalém participar no Concílio Apostólico, mas pouco depois regressou a Éfeso, onde criou um círculo a partir do qual passou a dirigir as igrejas daquela província, círculo esse que tudo indica ter sido, na realidade, a primeira escola cristã da Moderna Iniciação. De facto, e citando Elsa Glover [10], o Apocalipse, ou Revelação, é uma obra onde João descreve, em termos simbólicos, a via da Iniciação e aquilo que o iniciado pode investigar nos mundos subtis. A Igreja de Éfeso é o destino da primeira das cartas dirigidas às Sete Igrejas, isto é, os sete passos iniciáticos, embora a sua ordem não corresponda, necessariamente, àquela pela qual as igrejas são apresentadas. A Igreja de Éfeso representa a consagração da força criadora a propósitos espirituais em detrimento dos passionais; o aspirante é convidado a recordar aquilo em que haja falhado, a arrepender-se e a prosseguir o seu trabalho inicial (Ap 2, 5); aquele que vencer fica autorizado a comer da Árvore da Vida (Ap 2, 7), símbolo do poder que lhe possibilitará uma vida terrena tão longa quanto desejar; é o poder da cura, por isso o de manter indefinidamente o corpo físico. Assim, aquele que conseguir regenerar o uso da força criadora conquistará o poder da cura.
Em De Præscriptione Hæreticorum, XXXVI, Tertuliano (c. 160-c. 220) [11] diz que João foi preso e levado para Roma, onde, defronte da Porta Latina, foi metido num caldeirão de óleo a ferver, do qual, porém, saiu ileso. Então, por ordem do imperador Domiciano (81 a 96), foi desterrado para Patmos, onde, no ano de 95, terá escrito o Apocalipse. Há uma velha tradição, baseada em Viagens e milagres do Santo Apóstolo e Evangelista João Teólogo, relatados pelo seu discípulo Prócoros, um apócrifo do século V, segundo a qual foi numa gruta desta ilha grega que João, depois de ter ouvido “detrás de [si] uma grande voz, como de trombeta” (Ap 1, 10), escreveu o Apocalipse. A gruta foi, mais tarde, adaptada a igreja e incorporada no Mosteiro do Apocalipse. Uma nota curiosa: numa das paredes dessa gruta há uma fenda natural onde se diz que João apoiava uma das mãos enquanto escrevia, e vinda da qual ainda hoje se ouve, por vezes, a mesma grande voz .
Após a morte de Domiciano em 98, João regressou a Éfeso, onde escreveu o evangelho e as três epístolas canónicas, enquanto prosseguia a direcção do seu círculo cristão, ou moderna escola iniciática; será curioso referir que o mais antigo manuscrito do Novo Testamento que se conhece é um pedaço de papiro do tamanho de uma mão, designado P52, ou fragmento de John Rylands, cuja datação o situa entre os anos 100 e 125, e onde constam partes de versículos que muito provavelmente pertencem a este evangelho.
João faleceu em Éfeso no ano 102 com uma idade muito avançada.
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João escreveu em grego vulgar, com influência semítica, e os seus textos mostram que conhecia, perfeitamente, a Palestina do tempo de Jesus e que foi testemunha ocular do ministério de Cristo.
João era um essénio; é o que indiciam expressões como luz-trevas, caminhar nas trevas, testemunhos da verdade, espírito da verdade e iniquidade, Príncipe deste mundo, filhos das trevas, filhos da luz, etc., que nos remetem para o estilo literário dos manuscritos de Qumran; é o que se depreende do facto de usar o calendário solar dos Essénios para situar a Última Ceia no dia anterior ao da Páscoa, ao invés dos sinópticos que a situam na Páscoa, em conformidade com o calendário lunar judaico [12]; é o que se depreende, igualmente, do seu Apocalipse, cujo estilo é claramente essénico.
João é hoje venerado como patrono da Ásia Menor e o seu dia festivo é 27 de Dezembro; em arte é representado por diversos emblemas, principalmente por uma águia, símbolo da sua posição como evangelista e iniciado.
O QUARTO EVANGELHO
A nossa tendência materializante, bem própria, aliás, do momento evolutivo que atravessamos, leva-nos a olhar para os evangelhos como se fossem biografias de um ser divino, chamado Jesus Cristo, porém eivadas de fantasias e até contradições, principalmente entre os sinópticos e o quarto evangelho; no entanto, se lermos essas biografias numa perspectiva espiritualista não será difícil descortinarmos ensinamentos esotéricos de grande valor que transmutam as fantasias e contradições em características próprias de diferentes Escolas de Mistérios.
Com efeito, todos os evangelhos canónicos são fórmulas de iniciação que os autores dissimularam sob uma capa de símbolos, alguns mesclados com factos relevantes do ministério de Cristo e da vida de Jesus, fórmulas essas seguidas por três Escolas de Mistérios Menores com as quais estão relacionados os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, e uma de Mistérios Maiores, à qual pertence o evangelho de João [13]. Daí o paralelismo e semelhança dos relatos dos três primeiros e as diferenças, por vezes gritantes, do quarto evangelho, que fazem deste texto neotestamentário aquele que:
-- maior ênfase põe na divindade de Cristo; daí o relato do baptismo de Jesus e as palavras de João, o Baptista;
-- mais evidencia o poder divino: a cura do filho do funcionário real processou-se à distância (4, 46-51); o paralítico da piscina de Betsaída, era-o havia trinta e oito anos (5, 5-9); o cego de Jerusalém era invisual de nascença (9, 1-7), etc.
-- menos se debruça sobre o aspecto humano de Jesus; daí a ausência de referências genealógicas e o silêncio acerca do seu nascimento;
-- é o único onde a instituição da Eucaristia não é citada, não sendo aceitável que a “multiplicação dos pães”, ou o lava-pés da Última Ceia sejam uma alusão, ou o equivalente, a esse sacramento, como alguns pretendem;
-- é, também, o único onde não há parábolas, pois trata-se de um texto destinado a iniciados e não ao povo comum.
Mas as diferenças mais profundas residem no Prólogo e no tema do Paracleto.
O Prólogo
Recordemos os cinco primeiros versículos:
1 No princípio era o Verbo [14], e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus,
2 Ele estava no princípio com Deus,
3 Tudo começou a existir por meio d’Ele, e sem Ele nada foi criado,
4 N’Ele estava a Vida e a Vida era a luz dos homens,
5 A luz resplandece nas trevas mas as trevas não a dominaram [15].
Penso que, com estas palavras, João pretendeu, por um lado, definir o âmbito cósmico e a intemporalidade do trabalho de Cristo; por outro, realçar a sua analogia com o Verbo, o Segundo Aspecto como se manifesta o Ser Supremo. Digo analogia porque, na verdade, Cristo não é o Verbo, o que vai frontalmente contra a doutrina oficial da Igreja mas ao encontro do que afirma Max Heindel [16]. De facto, no versículo 14 do Prólogo João diz:
14 E o Verbo fez-se homem e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho único cheio de graça e verdade.
Ora este versículo – como infelizmente tantos outros – encontra-se viciado por dois erros de tradução, piedosamente propositados, admito eu.
O que em grego está escrito na primeira oração é ???????????????????????????kai o logos sarks egueneto)??cuja tradução não é propriamente a transcrita, mas sim E a Palavra foi matéria, uma vez que a palavra sa?? (sarks), que tem sido traduzida como homem, significa matéria, e apenas em sentido figurado se poderá traduzir como homem, ou carne, conforme também se vê em algumas versões em português, mas sempre em oposição a espírito; daí que, na nossa língua, matéria me pareça o termo mais adequado.
Outro erro é a tradução de µ????e???? (monoguenous) como Filho único; esta palavra significa uma só origem, no sentido de gerado por um só ser, o que, em boa verdade, corresponde muito melhor à imagem do Ser Supremo a emanar o Verbo, ou a Palavra, do que a gerar um filho único.
Mas há mais indícios de que Cristo não é o Verbo. O autor, ao afirmar que o Verbo era a luz verdadeira (v. 9), e que João, o Baptista veio para dar testemunho da luz (v. 8) - não da luz verdadeira - e deu testemunho d’Ele (v. 15), leva-nos à conclusão de que sendo Ele o Cristo, o Cristo é a luz, mas não a luz verdadeira, e como o Verbo era a luz verdadeira (v. 9), o Cristo não era o Verbo.
O Prólogo integra, ainda, determinados versículos que nos levam a uma outra conclusão, cujo perfeito entendimento permite desfazer algumas confusões teológicas.
Recordemos Max Heindel para, em primeiro lugar, considerarmos o Absoluto, o Ser Ilimitado, Raiz Cósmica de toda a existência, o qual, na fase de Não-Manifestação, está totalmente fora das capacidades de compreensão humana; na fase de Manifestação torna-se algo perceptível porque faz proceder de Si o Ser Supremo, o Um - que João designa como Deus - o qual se manifesta segundo três Aspectos: Poder, Verbo e Movimento.
Deste Ser Supremo procedem os Sete Grandes Logos que contêm em si as Grandes Hierarquias, as quais se vão diferenciando ao longo dos planos cósmicos; no sétimo e último encontra-se o Deus do nosso Sistema Solar, o qual se manifesta segundo três Aspectos: Vontade, Sabedoria e Actividade.
Conforme a Lei Cósmica da Analogia, há uma correlação entre os aspectos do Ser Supremo e do Deus do nosso Sistema Solar: quando o Deus do nosso Sistema Solar se manifesta como Vontade, age de forma análoga à do Ser Supremo quando se manifesta como Poder, o mesmo se passando com os demais aspectos divinos.
Mas esta correlação abrange, penso eu, os aspectos mais característicos como se manifestam, nos seus níveis, os mais elevados iniciados de cada Período de Evolução; assim sendo,
? ? o Pai age de forma análoga à do Deus do nosso Sistema Solar quando se manifesta como Vontade, e à do Ser Supremo quando se manifesta como Poder;
? ? o Filho, ou Cristo, age de forma análoga à do Deus do nosso Sistema Solar quando se manifesta como Sabedoria, e à do Ser Supremo quando se manifesta como Verbo;
? ? Jeová age de forma análoga à do Deus do nosso Sistema Solar quando se manifesta como Actividade, e à do Ser Supremo quando se manifesta como Movimento.
João passa por cima da correlação Cristo - Sabedoria do Deus do nosso Sistema Solar e vai directo ao Verbo, a Luz Verdadeira, para significar, penso eu, que Cristo, a Luz de que João Baptista deu testemunho, não é o Verbo mas que agiu, e continua a agir, de forma análoga ao Aspecto Verbo do Ser Supremo.