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Volume III - O Nome Germelshausen
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           Em torno do nome Germelshausen e de algumas ligeiras variantes gráficas, giram  diversos factos deveras interessantes pelo mistério esotericista que os envolve.    
 

GERMELSHAUSEN 

 
     Von Roesgen Germelshausen é o nome da família em que Christian Rosenkreuz reencarnou em 1378 e da qual foi o último descendente por ter sido o único que escapou ao massacre desta velha família germânica pelas tropas papais. Assim o dizem alguns estudiosos do Rosicrucismo, nomeadamente o senador belga Franz Wittmans, que em  History of the Rosicrucians (1919) se reporta ao que lhe contou um conceituado antiquário da Batávia, chamado Roesgen von Floss,  e o poeta e teósofo, convertido ao Budismo, Maurice Magre (1877-1941) que em Magicians, Seers and Mystic diz sensivelmente o mesmo.  Este nome, do antigo alemão, poderá significar casa do fermento, ou seja, a casa onde fermentou uma nova doutrina filosófica e religiosa. 
 
GERMERSHAUSEN  (um r em vez de um l)
 
     Nome actual de uma pequena cidade da Turíngia, situada a 86 quilómetros a noroeste da capital, Erfurt (51º 34' N, 10º 17' E). Dada a flagrante semelhança gráfica, mas principalmente as sua ligações telúricas com centros geográficos de grande simbolismo esotericista que no final irei expor, penso que terá sido aqui que se situou o castelo dos Von Roesgen Germelshausen. Esta cidade é, há muito, um conhecido local de peregrinação cristã.  Reza uma velha lenda que um pastor viu um súbito clarão na cavidade de um árvore e cheio de medo fugiu para a sua cabana.  Na manhã seguinte, porém, a curiosidade foi mais forte e o pastor dirigiu- se para a árvore onde encontrou uma estátua da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo.  O povo construiu ali uma capela, mas pouco depois recearam que o local, como era muito baixo, fosse inundado por uma cheia do rio Suhla; assim, decidiram construir uma nova, maior e mais bela capela num sítio alto, hoje o Monte da Capela, tendo começado a levar para lá pedras e madeiras. Porém, na manhã seguinte todos os materiais encontravam-se no vale, junto da velha capela. Convencidos de que se tratava de uma partida de mau gosto, voltaram a levar as pedras e madeiras para o alto do monte, mas na manhã seguinte tudo estava, de novo, no fundo do vale.  Decidiram, então, desvendar o mistério: levaram pela terceira vez pedras e madeiras para o monte, mas deixaram alguns homens, ocultos pela noite, a observar o que poderia passar-se.       
     Em dada altura o céu aclarou e a lua surgir a brilhar sobre a terra, o que lhes permitiu ver uma forma feminina, coberta com um manto branco como um fantasma, a atar todas as pedras a uma corda, findo o que desceu a encosta puxando a corda e arrastando todas as pedras até ao fundo do vale. Seguidamente voltou ao cume do monte e fez o mesmo com as madeiras, após o que desapareceu.  Perante este prodígio, o povo decidiu construir a nova capela no sítio escolhido pela Mãe de Deus, no fundo do vale, junto à árvore onde o pastor vira o clarão.  A imagem da Virgem e do Menino Jesus passaram a constar do brasão de Germershausen desde finais de 1950, apesar de então a Turíngia estar integrada na comunista República Democrática Alemã.  
 

GERMERSHAUSEN OU GERMESHAUSEN (semr)

 
     Ambas as formas são apelidos de diversas famílias alemãs dos tempos modernos, algumas imigrantes nos EUA. Um Germeshausen, de nome Bernhard, nascido em 1951 na Turingía, celebrizou-se como atleta olímpico ao conquistar três medalhadas de ouro.  Dada a semelhança gráfica, admito a possibilidade dos Germershausen e Germeshausen  pertencerem a ramos bastardos dos Germelshausen, uma vez que a existência de filhos ilegítimos era vulgar naqueles tempos, nomeadamente nas classes nobres.   
 

GERMELSHAUSEN (tal como o antropónimo) 

 
      Germelshausen  é o título de um conto fantástico de Friedrich Gerstäcker (1816-1872) sobre  uma aldeia que há séculos desapareceu, ninguém sabe porquê nem como, e que de cem em cem anos volta a aparecer mas somente durante um dia.  É precisamente na manhã de um desses dias, no Outono de 184..., que Arnold, um jovem pintor alemão que passeava pelas montanhas, encontrou Gertrud, uma bela jovem de Germelshausen, com quem passou o resto do dia, nascendo entre ambos um grande amor.  Entre alguns facto estranhos Arnold notou que, apesar do sino ter chamado para a missa, a igreja estava deserta; Gertrud disse-lhe que tinham discordado do Papa e que este os tinha proibido de irem à missa até voltarem a ser obedientes. Ao fim da tarde realizou-se um animado baile na estalagem, a que todos os habitantes estiveram presentes, tendo Arnold dançado amorosamente com Gertrud. Porém, um pouco antes da meia-noite, a jovem levou-o para fora da aldeia, convenceu-o a ficar aí até soar a última badalada da meia-noite, e prometeu aguardá-lo à porta da estalagem. Gertrud beijou-o e regressou apressadamente no meio de uma violenta tempestade que entretanto se desencadeara.  Mal soou a décima segunda badalada, Arnold, que aguentara a pé firme o temporal, correu em direcção de Germelshausen... mas esta tinha desaparecido e com ela a encantadora Gertrud e todos os seus habitantes. Convencido de que se tinha perdido, o jovem passou toda a noite à procura do caminho para a aldeia, mas em vão. Desesperado e exausto, decidiu aguardar o amanhecer para retomar as buscas, mas ao raiar do dia, um velho guarda florestal que por ali passava, contou-lhe a história de Germelshausen que há muitos anos se afundara onde agora havia um pântano. Com os olhos marejados de lágrimas, Arnold foi-se embora.    
 
O autor, Friedrich Gerstäcker
 
     Friedrich Wilhelm Christian Gerstäcker nasceu em 10 de Maio de 1816 em Hamburgo, na Alemanha, filho de um tenor e de uma actriz de ópera de sucesso. Quando o pai faleceu em 1825, teve de ir  viver com uns parentes em Braunschweig e depois em Leipzig, onde estudou, após o que se fez aprendiz de mercearia em Kassel.  Tinha um espírito imaginativo e aventureiro, sem dúvida espicaçado por livros como Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, que devorava desde muito novo.  Assim, em 1837 embarcou, como criado de camarote, para Nova Iorque onde ficou como imigrante.   A escassez de dinheiro e o desconhecimento da língua inglesa  obrigaram-no a aceitar todo e qualquer trabalho, pelo que foi bombeiro a bordo do Mississipi, cozinheiro no Arkansas, agricultor, ourives, madeireiro, comerciante, moço de estrebaria e segurança de um hotel no Louisiana. Entre um emprego e outro vagueou pelos estados da União como caçador de ursos e veados, tendo feito numerosos amigos no noroeste do Arkansas.  “Assim, levei uma vida selvagem num país selvagem e aí me familiarizei como as melhores características da União mas também com as piores”, iria escrever mais tarde. De facto, Gerstäcker costumava registar as suas aventuras e viagens em diários que ia enviando para sua mãe, na Alemanha, que um dia os mostrou ao editor de Rosen, uma conceituada revista da época,  que os publicou com grande sucesso.
 

     Quando regressou à Alemanha em 1843, ficou surpreendido com a fama que alcançara como escritor, pelo que decidiu dedicar-se à literatura; para começar reviu os seus diários e escreveu

Vagueando e Caçando nos Estados Unidos da América do Norte (1844), a que se seguiu a sua primeira novela Os Controladores do Arkansas (1845), que foram um verdadeiro sucesso e são ainda hoje objecto de estudo. Em 1845 casou com Anna Aurora Sauer, e entre 1849 e 1852 fez uma volta ao mundo que o levou  à Argentina,  ao Chile, à Califórnia, que fervilhava com a corrida ao ouro, e à Polinésia, uma proeza, rara naquela época, que inspirou o seu romance Os Dois Reclusos (1857), outro sucesso. Entretanto conquistou a amizade e o apoio do duque  Ernest de Saxe-Coburg Gotha que em 1860 o enviou à América do Sul a fim de visitar as comunidades alemãs ali instaladas e informar da possibilidade de orientar para aí a emigração germânica; esta viagem e as suas observações ficaram registadas em Dezoito Meses na América do Sul (1862).   Em 1861 faleceu sua mulher; para o ajudar a ultrapassar o desgosto, o seu amigo duque convidou- o a acompanhá-lo numa viagem ao Egipto e à Abissínia, que Gerstäcker naturalmente aceitou. De regresso à Alemanha fixou-se em Rosenau, próximo de Coburg, onde escreveu diversas novelas descritivas das regiões que tinha visitado. Foi em 1861 ou 1862 que Friedrich Gerstäcker compôs Germelshausen, publicado em Leipzig, em 1862, numa colecção de contos intituladaHistórias Secretas e Misteriosas.  Em  1863 casou com Marie Louise  Fischer van Gaasbeck, uma jovem holandesa de 19 anos apenas, o que não o impediu de em 1867-68 realizar outra viagem que o levou  ao México, Índias Ocidentais, Equador, Venezuela e de novo aos EUA. Regressado à Alemanha, fixou-se em Dresden e depois em Braunschweig, mas ainda participou no conflito Franco-Prussiano como correspondente de guerra.  Em 31 de Maio de 1872, quando preparava nova viagem, agora para a Índia, China e Japão, faleceu, vítima de uma hemorragia cerebral.  

 

                                          * * *

 
     Friedrich Gerstäcker, para além de um infatigável viajante, foi um prodigioso escritor que deu à estampa cerca de cento e cinquenta obras, sendo as mais famosas as que se referem a viagens pela América do Norte e América do Sul, as quais, ao contrário de meros roteiros, são narrativas  pessoais e coloridas, precursoras do género moderno.  Para os estudantes rosicrucistas a obra de maior interesse é, evidentemente, Germelshausen, que

inspirou outras obras sobre povoações que desapareciam durante anos para voltarem a aparecer por breves momentos para serem palco de grandes amores; estão neste caso Brigadoon, um musical que estreou na Broadway em 1947, adaptado ao cinema  em 1954 por Vicente Minnelli, e exibido em 1966 pela cadeia televisivaABC em formado reduzido, The Night  Train to Kathmandu (1988) ( Encontro em Katmandu ), outro filme, e o conto The Lost Love( O Amor Perdido ), cujo autor desconheço.  

 

O CONTO GERMELSHAUSEN E O ROSICRUCISMO

 
     Muito embora nada haja na biografia de Friedrich Gerstäcker que o possa relacionar com a Filosofia Rosacruz, Germelshausen suscita algumas perguntas deveras curiosas: 
 

 ? por que razão o autor baptizou a aldeia com o nome de família de Christian Rosenkreuz? 

     por que deu a localização exacta da aldeia, situando-a próximo de Dillstädt (50º 34´N, 10º 31’ E). entre Marisfeld (50º 33’ N, 10º 33’ E)  e Witchtelhausen (50º 36’ N, 10º 34’ E)?

     Terá querido simbolizar algum facto espiritualista? Qual?    Comecemos pela segunda questão, para o que convém abrir um mapa, de preferência de projecção ortogonal. Tracemos uma linha recta entre as cidades de Germershausen e Weimar; note-se que não foi por acaso que Goethe, um Rosacruz, escolheu Weimar para viver desde 1775 até à sua morte em 1832, como não foi por acaso que aqui escreveu a sua obra-prima Fausto. Se prolongarmos esta linha para Sudeste, chegamos a Berzverov, onde se situa o Templo do Espírito Santo, a sede etérica da Ordem Rosa Cruz; mas se a prolongarmos ainda mais iremos até Damasco, onde se situava o primeiro centro iniciático que Christian Rosacruz procurou na sua viagem pelo Médio Oriente e cujos arredores foram palco da famosa conversão de Saulo (cf. Ac 9, 3-9). Voltemos a Weimar; se traçarmos uma linha recta para Sudoeste, perpendicular à primeira, iremos parar à aldeia de Germelshausen, e se a prolongarmos chegaremos à ponta de Sagres. Se continuássemos a prolongá-la talvez fossemos ter ao templo de Clito e Poséidon, em plena Atlântida... Mas se a prolongarmos para Nordeste chegaremos a São Petersburgo, onde em 1762 o Conde de Saint Germain, uma encarnação de Christian Rosenkreuz,  criou a Ordem dos Rosa-Cruzes de Ouro e uma loja da Franco-Maçonaria.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

     Parece-me  evidente que estas linhas definem correntes telúricas que unem determinados centros  espirituais a que Friedrich Gerstäcker juntou a sua aldeia de Germelshausen.  Passemos, agora, às outras duas questões.  Numa conferência proferida em Kassel em 27 e 29 de Janeiro de 1912, Rudolf Steiner disse que “somente podemos perceber o trabalho do Rosicrucismo de hoje, quando compreendermos que nunca foi um modelo estabelecido uma vez e para todo o sempre, mas que, pelo contrário, assume diferentes formas em cada século. A razão disso é a necessidade do Rosicrucismo se adaptar às condições dos tempos”, as quais, como é notório, se alteram, mais ou menos profundamente, de século para século.  Assim sendo, penso que o conto de Friedrich Gerstäcker seja uma alegoria da adaptabilidade rosacruz a novos tempos.

     Germelshausen representará Christian Rosenkreuz e o próprio Rosicrucismo; não disse Gertrud que os habitantes da aldeia tinham discordado do Papa e que ele os proibira de ir à missa até voltarem a ser obedientes? Não tem o Rosicrucismo discordado sempre do Papa? O desaparecimento da aldeia corresponderá ao trabalho de adaptação às novas condições do século seguinte, levado a efeito nos planos espirituais, logo invisíveis, e a sua reaparição simbolizará o novo impulso que irá dar à evolução da humanidade e que será perceptível, ou visível, para quem estiver preparado para o reconhecer.  

Uma nota final.

     O Amor é o único caminho que conduz à perfeição do homem. Ora o Amor é o sentimento que domina toda a história de Germelshausen e que, curiosamente, é sublimado quer em Brigadoon, quer em The Last Love! Será que estes autores estão relacionados com a Rosa Cruz, ou apenas sofreram um impulso espiritualista que os levou a cantar o Amor?     

 

                                                António Monteiro

                                                                   Março de 2007  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Reflexões dum Estudante Rosacrucista

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