“O que está em baixo é como o que está em cima”
Este é, sem dúvida, o axioma mais citado nas obras ocultistas,
principalmente as que versam temas alquímicos, reportando-se os seus autores à Tábua de Esmeralda ou a Hermes Trismegisto, porém pouco ou nada mais adiantando sobre estas origens. Nestas condições, parece curial perguntar:
- - O que é a Tábua de Esmeralda?
- - O que está ali escrito?
- - Quem é, ou foi, Hermes Trismegisto?
São as respostas possíveis a estas perguntas
que vou procurar dar, uma vez dizerem respeito a matérias que se situam no campo da Filosofia Rosacruz e o axioma em causa ser frequentemente
lembrado por Max Heindel; são as respostas possíveis, disse, pois tudo está envolto em mitos e símbolos, o que dá origem a diversas
versões do texto e a opiniões divergentes sobre o seu autor.
AS ORIGENS
Nada há que permita estabelecer, com alguma segurança, a origem real, não da tábua propriamente dita - que, de resto, ninguém jamais
viu - mas do texto que se diz ter sido ali gravado. Tudo quanto se sabe é que a referência mais antiga que se conhece, encontra-se
num escrito árabe dos fins do século VIII, atribuído a Geber (ou Jabir) ibn Hayyan; no mundo cristão, Santo Alberto Magno (1200-1280)
conhecia a sua versão em latim. Segundo o professor Georg Luck, a versão árabe pode reflectir um original grego que se perdeu, e a
versão latina poderá ter sido feita a partir da árabe [i][1].
Desde então a Tábua de Esmeralda ou, para ser mais preciso, o seu texto,
tornou-se famoso nos meios ocultistas em geral e nos alquimistas em particular, por ser considerado, essencialmente, uma fórmula alquímica
relativa, quer à transmutação dos metais básicos, quer à divina regeneração humana. Daí que, com o correr dos tempos, a versão inicial
em latim fosse sendo substituída por sucessivas traduções em línguas modernas, algumas das quais da autoria de nomes famosos como
Isaac Newton, H.P.Blavatsky e Fulcanelli.
Há, no entanto, duas versões e dois autores que, por serem aceites pela maioria dos estudiosos,
iremos apresentar: a primeira – e que reúne o maior consenso - afirma que o texto foi escrito, em caracteres fenícios, por Hermes
Trismegisto; a segunda, cuja defesa está quase confinada à Maçonaria, pretende que o texto - que, aliás, pouco difere do anterior
- foi escrito, em caracteres caldaicos, por Chiram, ou Hiram, ou ainda Hiram Abiff, o construtor do Templo de Salomão.
Há, ainda,
uma terceira e inevitável opinião sobre textos, caracteres e autores, a dos críticos materialistas para os quais tudo não passa de
uma fraude dos primeiros tempos da Idade Média; não percamos mais tempo com ela ...
Na
versão mais consensual, o texto começa com a frase Palavras secretas de Hermes, e antes de terminar diz ... por isso sou chamado Hermes
Trismegisto, porque possuo as três partes da sabedoria de todo o mundo; daí que se atribua a sua autoria a Hermes Trismegisto, embora
não se saiba, com um mínimo de segurança, quem foi esta personagem, nem se existiu, sequer.
O AUTOR
Na mitologia grega, Hermes, filho de Zeus e da ninfa Maia, era o mensageiros dos deuses; calçava sandálias com asas e usava um capacete também com asas;
empunhava, sempre, o célebre caduceu, uma vara onde se entrelaçavam duas serpentes, encimada por um par de asas. Mas Hermes era mais
do que isto: era o condutor das almas dos mortos ao mundo subterrâneo e tinha poderes mágicos sobre o sono e os sonhos; era o deus
do comércio e o protector dos negociantes e dos rebanhos; era o deus dos atletas e o protector de ginásios e estádios; e era, ainda,
o responsável pela boa sorte e riqueza. Apesar destas virtuosas características, era velhaco, impostor e ladrão; logo no dia em que
nasceu roubou o gado do seu irmão Apolo e ocultou o rasto fazendo com que os animais andassem para trás; ao ser confrontado, negou
tudo. Os irmãos acabaram por se reconciliar quando Hermes ofereceu a Apolo um seu novo invento, a lira.
Hermes Trismegisto será o aspecto
humano do deus grego, e Thoth (ou Toth) o seu equivalente egípcio; Thoth significa Serpente, e a serpente era o símbolo do Conhecimento,
da Sabedoria; o epíteto Trismegisto, Três Vezes Grande, vem do facto de Thoth ser o maior filósofo, o maior sacerdote e o maior rei.
A Hermes Trismegisto é atribuída, também, a autoria de tratados eclécticos do século I d.C, sobre filosofia mística do helenismo,
onde se fundem elementos platónicos, estóicos, órficos e neopitagóricos, e que defendem a salvação através do conhecimento de Deus,
cuja manifestação visível é o Sol. Estes tratados, transmitidos sob o nome de Hermética, exerceram grande influência na Idade Média
e no Renascimento, nomeadamente nos domínios da alquimia e magia.
* * *
Há uma outra versão, deveras curiosa, da autoria
de Doreal, uma personagem que se diz relacionada com a Grande Loja Branca e que em 1925 foi autorizada a ir à Grande Pirâmide buscar,
não a Tábua, mas as doze Tábuas de Esmeralda, copiá-las e voltar a colocá-las no mesmo sítio; acrescenta que só agora teve autorização
de tornar público parte do seu conteúdo, para o que se serve ... da Internet.
Para Doreal, Thoth, o seu autor, era um rei-sacerdote atlante que, cerca do ano 50.000 a.C. e antes da Atlântida desaparecer no mar,
fundou uma colónia no antigo Egipto que governou até 36.000 a.C. Quando chegou o tempo de partir, construiu a Grande Pirâmide sobre
a entrada dos Grandes Vestíbulos (por onde as almas passam a caminho do julgamento), onde guardou as doze Tábuas de esmeralda verde,
uma substância criada por transmutação alquímica, imperecível e indestrutível.
Não vou transcrever tudo quanto Doreal foi autorizado a revelar, pois só a versão, em inglês, da primeira tábua tem 8.416 caracteres;
os mais curiosos poderão consultá-las em http://www.rainbow-nation.co.uk/frame_set_ancient_manuscript.html
Em
latim, da autoria de Heinrich Khunrath [ii][2]:
Verba
secretorum Hermetis - Verum, sine mendacio, certum et verissimum: quod est inferius est sicut quod est superius; et quod est superius
est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius. Et sicut omnes res fuerunt ab uno, mediatione unius, sic omnes res
natae fuerunt ab hac una re, adaptatione. Pater ejus est Sol, mater ejus Luna; portavit illud Ventus in ventre suo; nutrix ejus Terra
est. Pater omnis telesmi totius mundi est hic. Vis ejus integra est si versa fuerit in terram. Separabis terram ab igne, subtile a
spisso, suaviter, cum magno ingenio. Ascendit a terra in coelum, iterumque descendit in terram, et recipit vim superiorum et inferiorum.
Sic habebis gloriam totius mundi. Ideo fugiet a te omnis obscuritas. Hic est totius fortitudine fortitudo fortis; quia vincet omnem
rem subtilem, omnemque solidam penetrabit. Sic mundus creatus est. Hinc erunt adaptationes mirabiles, quarum modus est hic. Itaque
vocatus sum Hermes Trismegistus, habens tres partes philosophiæ totius mundi. Completum est quod dixi de operatione Solis.
*
* *
A maioria das traduções em línguas ocidentais apresenta algumas diferenças, pelo que achei por bem integrá-las na versão que se segue:
Se tudo quanto se refere à Tábua
de Esmeralda é nebuloso, então a interpretação do texto está ainda mais envolta em nuvens, a não ser, naturalmente, para um verdadeiro
alquimista.
Apesar de tudo, vamos apresentar a explicação que nos
é dada por outra personagem misteriosa, Hortulano, ou Jardineiro, assim chamado por causa dos jardins marítimos, diz ele! Há quem
pretenda que o seu verdadeiro nome seja Joanes Grasseus e que viveu no século XV. A. E. Waite, em A Irmandade Rosa-Cruz, menciona
um alquimista parisiense do século XIV, de nome Ortholanus, autor de uma Alquimia Prática e de uns comentários à Tábua de Esmeralda,
e Julius Évola, em A Tradição Hermética, cita um Ortulano e os seus Comentários à Tábua Esmeraldina. Seja como for, a explicação da
Tábua de Esmeralda, feita por Hortulano, é a que se segue.
Louvor, honra e glória lhe sejam dadas para sempre, ó Senhor Deus Todo Poderoso! Com vosso querido filho Jesus Cristo, nosso Salvador,
verdadeiro Deus e único Homem Perfeito, e com o Santo Espírito Consolador - Trindade Santa -, Vós que sois o único Deus. Dou-vos graças
porque, havendo conhecido as coisas passageiras deste mundo, inimigo nosso, vós me retirastes dele, por vossa misericórdia, para que
eu não fosse pervertido por suas enganosas voluptuosidades. E, como vejo muitos que trabalham nessa arte não seguirem o recto caminho,
suplico-vos, meu Senhor e meu Deus, que, se assim vos aprouver, eu possa desviar do erro, pela ciência que me destes, todos meus queridos
e bem amados, a fim de que, conhecendo a verdade, possam louvar vosso santo Nome, que seja eternamente bendito. Assim, pois, eu, Hortulano,
- isto é, Jardineiro -, assim chamado por causa dos jardins marítimos, indigno como sou de ser chamado discípulo da Filosofia, movido
pela amizade que devo aos meus amados, quis deixar escrita a declaração e explicação das palavras de Hermes, pai dos Filósofos, ainda
que sejam obscuras, aclarando sinceramente toda a prática da verdadeira Obra. Certamente, de nada serve que os Filósofos queiram esconder
a ciência nos seus escritos quando está operando a doutrina do Espírito Santo.
CAPÍTULO I
A ARTE DA ALQUIMIA É CERTA E VERDADEIRA
O Filósofo disse: "é verdade",
referindo-se a que a arte da Alquimia nos foi dada. "Sem mentira", disse, para convencer quem diz que a ciência é mentirosa ou falsa.
"Certo", isto é, experimentado, pois tudo o que foi experimentado é muito certo. E "muito verdadeiro", pois o muito verdadeiro Sol
é procriado pela arte. Disse "muito verdadeiro" no modo superlativo porque o Sol engendrado por esta arte ultrapassa a todo Sol natural
em todas suas propriedades, tanto medicinais como outras.
CAPÍTULO II
A PEDRA DIVIDIR-SE-Á EM DUAS PARTES
Continuando sua exposição,
trata da operação da pedra, dizendo que "o que está em baixo é igual ao que está em cima". Disse isso porque, pelo Magistério, a pedra
divide-se em duas partes principais: a superior, que vai para cima, e a inferior, que permanece em baixo, fixa e clara. E, sem dúvida,
estas duas partes são semelhantes em virtude de ter dito: "o que está em cima é como o que está em baixo". Certamente esta divisão
é necessária. "Para fazer os milagres de uma só coisa", isto é, da Pedra, pois a parte inferior é a Terra, a nutriz e o fermento;
a parte superior é a Alma que vivifica toda a Pedra e a ressuscita. Por isso, uma vez realizadas a separação e a conjunção, aparecem
os "numerosos milagres" na Obra secreta da Natureza.
CAPÍTULO III
A PEDRA POSSUI, EM SI MESMA, OS QUATRO ELEMENTOS
E "do mesmo modo
que todas as coisas são e vêm do Uno por mediação do Uno". Aqui o Filósofo exemplifica dizendo que todas as coisas "são e vêm do Uno",
isto é, de um globo confuso ou de uma massa confusa, "por mediação", quer dizer, pelo pensamento e pela criação do Uno, ou seja, de
Deus todo poderoso. Assim, todas as coisas nasceram, ou saíram, desta coisa única, que é uma massa confusa, "por adaptação", unicamente
pelo mandado e milagre de Deus, assim, a nossa Pedra nasce e surge de uma massa confusa, que contém em si todos os elementos e que
foi criada por Deus, e por seu milagre a nossa Pedra sai dali e nasce.
CAPÍTULO IV
A PEDRA TEM PAI E MÃE, QUE SÃO O SOL E A LUA
Do mesmo modo que vemos
um animal gerar naturalmente outros animais com ele parecidos, assim o Sol gera artificialmente o Sol, pela virtude da multiplicação
da pedra, e por isso continua: "o Sol é seu Pai" - o Ouro dos Filósofos. E, dado que em todas as gerações naturais tem de haver um
lugar próprio para receber as sementes com uma certa conformidade de semelhança entre as partes, assim também é preciso que, nesta
geração artificial da Pedra, o Sol tenha uma matéria que seja a matriz adequada para receber o seu esperma e a sua tintura. E isto
é a Prata dos Filósofos, por isso continua dizendo: "a Lua é a sua mãe".
CAPÍTULO V
A CONJUNÇÃO DAS PARTES É A CONCEPÇÃO E A GERAÇÃO DA PEDRA
Quando
ambos se recebem um ao outro na concepção da Pedra, esta é engendrada no seio do Vento, e isto é dito em seguida: "o Vento a trouxe
em seu seio". Sabe-se que o Vento é o ar, e o ar é vida, e a vida é a alma, que, como já foi dito antes, vivifica a Pedra. Assim,
pois, é necessário que o Vento traga toda a Pedra e a transporte, gerando o Magistério. Disso se infere que a Pedra deva receber o
alimento de sua nutriz, a Terra. Disse ainda o Filósofo: "a Terra é sua nutriz". Pois, como a criança que sem o alimento que recebe
de sua mãe jamais cresceria, assim também a nossa Pedra jamais chegaria a existir sem a fermentação da Terra, e o fermento chama-se
alimento. Deste modo, por conjunção do pai com a mãe se geram os filhos, semelhantes aos pais, e que, se são submetidos a um demorado
cozimento, tornar-se-ão semelhantes à mãe e terão o peso do pai.
CAPÍTULO VI
A PEDRA É PERFEITA SE A ALMA SE FIXA NO CORPO
________________
[1][1] In Arcana Mundi ,,
[1][2] Heinrich Khunrath, ou Kunrath, (c. 1560 – 1605), médico alemão e alquimista, autor de uma obra célebre,
Amphitheatrum sapientiae aeternae . O seu motto era “ Was helffn Fackeln, Liecht oder Brilln,
Wann die Leute nicht sehen wölln? " (Para que servem tochas, luz ou óculos aos que não vêem?)
[1][3] Thelesma, ou Thelesme, ou ainda Telesmi, palavra
difícil, enganosa, que aparece traduzida por estudiosos como coisa completa , expressão que se julga a mais próxima da ideia original.