Volume VI - Os Versos de Ouro de Pitágoras
Notas :
Os Versos de Ouro, tradicionalmente atribuídos a Pitágoras (c. 580 a.C - 500 a.C), constituem um documento de valor inestimável
e que, apesar de escritos há cerca de 2.500 anos, mantêm total actualidade.
Não se sabe, ao certo, quem foi o seu autor, mas é Lísis quem parece reunir maior consenso entre os estudiosos. A cópia mais antiga que chegou até nós é de Hierocles de Alexandria, da qual
foram feitas diversas traduções para línguas modernas, as quais, no entanto, apresentam algumas diferenças.
Preparação
- Primeiro,
adora os Deuses Imortais, como eles estabeleceram e ordenaram na Lei.
- Reverencia o Juramento, e a seguir os Heróis, plenos de bondade
e luz.
- Honra igualmente os Demónios Terrestres prestando-lhes o culto que lhes é legalmente devido.
Purificação
- Honra igualmente
os teus pais, e aqueles que te são mais próximos.
- De todo o resto da humanidade, faz teu amigo aquele que se distinguir pela sua virtude.
- Ouve
sempre as suas pacíficas exortações, e toma como exemplo as suas virtuosas e úteis acções.
- Evita tanto quanto possível odiar os teus
amigos por faltas insignificantes.
- E compreende que poder é um vizinho próximo da necessidade.
- Sabe que todas estas coisas são como
as disse a ti; e habitua-te a superar e a vencer estas paixões:
- Primeiro a gula, preguiça, luxúria e ira.
- Não faças nada de mal, nem
na presença de outros, nem em privado,
- Mas acima de tudo, respeita-te a ti mesmo.
- A seguir, observa a justiça nos teus actos e nas
tuas palavras,
- E não te habitues a comportares-te em todas as coisas sem regra e sem razão,
- Mas considera, sempre, que é ordenado
pelo destino que todos os homens morram,
- E que os bens da sorte são incertos; e que como podem ser adquiridos, assim podem ser igualmente
perdidos.
- No que concerne a todas as calamidades que os homens sofrem pela divina fortuna,
- Suporta, com paciência, o teu fado, seja
ele qual for, e nunca te lastimes,
- Mas esforça-te no que puderes corrigir.
- E leva em consideração que o destino não envia a maior
porção destas desgraças aos homens bons.
- Há entre os homens muitas formas de raciocinar, boas e más;
- Não os admires nem os rejeites
com muita facilidade.
- Mas se forem ditas falsidades, ouve-os com suavidade, e arma-te com paciência.
- Observa bem, em todas as
ocasiões, o que te vou dizer:
- Não deixes que nenhum homem, seja por palavras, seja por actos, te seduza,
- Nem te seduzas tu ao dizeres
ou fazeres o que não for proveitoso para ti mesmo.
- Informa-te e delibera antes de actuares, para que não cometas acções disparatadas,
- Porque
isso é próprio de um homem miserável: o falar e actuar sem reflectir.
- Mas faz o que mais tarde te não afligir nem te causar arrependimento.
- Nunca
faças nada que não compreendas.
- Mas aprende tudo o que tens obrigação de conhecer, e assim levarás uma vida feliz.
- De nenhum modo
neglicencies a saúde do teu corpo;
- Mas dá-lhe bebida e comida na justa medida, e exercita, também, o que de tal tiver necessidade.
- Por
medida quero dizer o que te não incomoda.
- Habitua-te a um estilo de vida simples e decente, sem ostentações.
- Evita tudo o que suscitar
inveja,
- E não sejas perdulário sem motivo, como alguém que não sabe o que é decente e honroso.
- Nunca sejas cobiçoso nem avarento;
a justa medida é excelente nestas coisas.
- Faz apenas aquilo que não pode ferir-te e pondera cuidadosamente antes de o fazeres.
Perfeição
- Nunca
permitas que o sono feche os teus olhos, depois de teres ido para a cama,
- Até teres examinado, com a tua razão, todas as tuas acções
do dia:
- Em que é que eu errei? O que é que eu fiz? O que é que eu não fiz e que devia ter feito?
- Se neste exame achares que fizeste
mal, repreende-te severamente;
- E se fizeste algo bom, regozija-te.
- Pratica minuciosamente todas estas coisas; medita bem nelas; deves
amá-las com todo o teu coração;
- Elas irão pôr-te no caminho da virtude divina.
- Eu o juro por aquele que passou para as nossas almas
a Tetraktis Sagrada, a fonte da natureza, cuja causa é eterna.
- Mas nunca deites mão a nenhuma obra antes de teres, em primeiro lugar,
rogado aos deuses que aperfeiçoem o que vais começar.
- Quando fizerdes disto um hábito familiar,
- Conhecerá a constituição dos Deuses
Imortais e dos homens.
- Verás quão extensa é a diversidade dos seres e aquilo que os contém e os mantém presos;
- Igualmente
saberás que, de acordo com a Lei, a natureza deste universo é semelhante em todas as coisas;
- Deste modo não terás de esperar o que
não deves esperar; e nada neste mundo te será oculto.
- Igualmente saberás que os homens lançam sobre si mesmos as suas próprias desgraças, voluntariamente, e por sua própria e livre opção.
- Infelizes que eles são! Nem vêem nem compreendem que o seu bem está junto deles.
- Poucos
sabem como se livrar das suas desgraças.
- Tal é o fado que prende a humanidade, e lhe rouba a consciência.
- Como grandes ondas, rolam
de um lado para o outro e oprimem-se com males inumeráveis.
- Pois uma luta fatal, inata, persegue-os por toda a parte, sacudindo-os
para cima e para baixo; nem eles percebem isso.
- Em vez de provocarem e excitarem isso, deviam evitar isso tornando-se úteis.
- Oh! Zeus,
nosso Pai! Se não libertares os homens de todos os males que os oprimem,
- Mostra-lhes de que demónios se devem servir.
- Mas toma coragem;
a raça do homem é divina;
- A natureza sagrada revelar-lhes-á os mais recônditos mistérios;
- Se ela te revelar os seus segredos, facilmente
realizarás todas as coisas que te recomendei
- E pela cura da tua alma, libertá-la-ás de todos os males, de todas as aflições.
- Mas abstém-te
de carnes que nós proibimos nas purificações e na libertação da alma;
- Faz uma distinção justa das mesmas e examina bem todas as coisas.
- Deixando-te,
sempre, guiar e ser dirigido pela compreensão que vem do alto e que deve segurar as rédeas,
- Quando, tendo-te despojado do teu corpo
mortal, chegares ao mais puro Éter,
- Serás um Deus imortal, incorruptível e a Morte não mais terá domínio sobre ti.
UM
BREVE COMENTÁRIO
Versos 1 a 3 – É curioso notar
a hierarquização dos seres espirituais em deuses, heróis ou semideuses, e demónios terrestres, e o facto de se situarem abaixo doDeus Criador, a quem os Deuses Imortais prestaram um Juramento que deve ser reverenciado, o de preservar todas as coisas nos seus
lugares, e manter a beleza e a harmonia do Universo. Os Demónios Terrestres serão, em minha opinião, os Egos de homens justos
e bons que já alcançaram a libertação do ciclo de morte e vida, ou estão prestes a alcançá-la, isto é, altos Iniciados. Recorde-se
que Sócrates dizia ter, como companheiro, o seu demónio.
Versos 40 a 44 – Trata-se, evidentemente, do exercício de Retrospecção
que Max Heindel nos transmitiu e que tanto prezava.
Verso 47 – Este juramento é feito perante o próprio Pitágoras, de onde a hipótese
de Os Versos de Ouro não terem sido escritos por ele, mas por um dos seus discípulos.
A Tetraktis é o número quaternário,
ou o 10 formado pela adição dos quatro primeiros números (1+2+3+4), um dos conceitos fundamentais na doutrina pitagórica. O quatro simboliza
a terra, a totalidade do criado e do revelado, sendo a totalidade do criado também a totalidade do perecível. Pitágoras dizia que
a nossa alma é formada pela tetraktis, ou seja a inteligência, a ciência, a opinião e a sensação.
Verso 62 – Estes demónios são os
seus próprios Egos superiores, porque vê-los e conhece-los significa estar livre de todos os males.
António
Monteiro
Centro Rosacruz Max Heindel
Reflexões dum Estudante Rosacrucista
António Monteiro Link