Como disse na nota prévia, a interpretação de algumas passagens de Fausto é da minha
responsabilidade; é por aqui que vou começar.
“ Segundo antigo ritmo, o Sol
Com as esferas canta uma
canção ” (243-244)
Com esta alusão clara à música das esferas, penso que Goethe quis assinalar
o simbolismo cósmico da sua obra, cuja acção se desenrola no nosso mundo sob o olhar do nosso pequeno deus , um deus menor porque
está em evolução, um homem de um deus maior , no dizer de Fernando Pessoa [xxviii][28]
. “O pequeno deus do mundo
não mudou
Desde o dia primeiro mui singular ficou” [fala de Mefistófeles] (281-282)
* * *
O mito de Fausto, diz Max Heindel [xxix][29], é tão antigo quanto a humanidade e, como
tal, contém uma grande verdade cósmica, a evolução do homem durante a presente época e o papel desempenhado, neste processo, pelos
filhos de Seth e os de Caim.
Fausto representa a vanguarda da raça humana, sendo por isso considerado
louco e extravagante pelo comum dos mortais menos avançados. Porém, a sua vida de estudo não lhe proporcionou o verdadeiro saber;
convicto de que, por essa via nada alcançaria que pudesse ensinar à humanidade, a fim de a salvar [xxx][30] , entregou-se à magia
na esperança de que, pela força da mente, o mistério se abrisse perante si [xxxi][31] .
Nestas condições, Fausto invocou o Espírito da Terra e as palavras que este lhe dirigiu são uma excelente matéria de meditação, diz
Max Heindel [xxxii][32] , pois representam, no plano místico, o que o candidato sente quando pela primeira vez se apercebe da realidade
deste exaltado ser.
“Nas vagas da vida, vendavais de acção,
Me vês subir, descer,
Tecer fios neste pano!
Nascer e morrer,
Eterno oceano,
Alternando a trama,
A vida uma chama,
E sentado ao tear vibrante do Tempo
Teço à divindade o seu manto vivo” (501-509)
Fausto, porém, não conseguiu obter do Espírito
da Terra os almejados ensinamentos, tal como não iria dominar o Espírito da Negação porque não foi pelo poder da sua alma que entrou
em contacto com qualquer um deles [xxxiii][33]
Goethe serve-se, a propósito, das figuras do
Espírito da Terra e de Mefistófeles para nos prevenir contra pessoas e espíritos que se oferecem para satisfazer os nossos desejos,
uma vez que, por via de regra, perseguem fins que nos são adversos. A vinda de Mefistófeles serve, também, para ilustrar outra verdade
esotérica: a via pela qual um espírito entra num determinado espaço é a mesma por onde tem de sair.
“Para o demo
e os espectros há um preceito:
Por onde entram voltam a sair;
À primeira são livres, à segunda obedecem” (1410-1412)
É este preceito que faz com que o Cristo, que penetrou na Terra pelo corpo vital de Jesus, só possa
sair, de volta ao Sol, através do mesmo veículo [xxxiv][34] .
Mefistófeles, um espírito marciano, quis ficar
na posse de um pouco do sangue de Fausto a fim de o poder controlar, uma vez que o sangue, seiva como outra não há , [xxxv][35]
contém ferro, um metal de Marte. Assim, tal como os filhos de Caim foram guiados pelos espíritos luciferinos, Fausto foi guiado –
e controlado – por Mefistófeles, mas, curiosamente, esta situação permitiu-lhe conhecer e viver, tanto a profundidade dos pesares
da alma humana, como a exuberância das suas alegrias, condição sine qua non para sentir a compaixão necessária para cooperar
na elevação da Humanidade. Mefistófeles é, pois, um espírito que só quer o mal mas que acaba por fazer o bem.
Margarida representa os filhos de Seth e Fausto os filhos de Caím. Margarida era pura, mas não virtuosa porque nunca havia sido tentada
e a tentação está para o desenvolvimento da alma como o exercício físico para o desenvolvimento muscularo [xxxvi][36] ; o encontro
com Fausto trouxe a ambos miséria e sofrimento mas que, no final, os iriam conduzir de volta às gloriosas regiões de onde tinham vindo[xxxvii][37].
Goethe censura o comportamento da Igreja Católica. Para Fausto conquistar o coração de Margarida,
Mefistófeles colocou, no seu quarto, valiosos presentes; a mãe, indecisa, levou-os ao padre e este, em vez de a aconselhar a desprezá-los,
ficou com eles para adornar um qualquer ídolo. E assim Lúcifer, graças à cobiça da Igreja, conquistou duas almas, a da mãe e a do
irmão de Margarida, por causa de quem tinham encontrado a morte [xxxviii][38]. Já no final do drama é o Arcebispo que, mais do que
a felicidade da humanidade no paraíso sonhado por Fausto, se interessa pelos dimos, rendas, censo e o que mais haja [xxxix][39] que as novas terras lhe irão proporcionar. No fundo de uma enxovia, aguardando o carrasco, Margarida, sofrida e arrependida,
recusa a salvação que Fausto lhe oferece, assim se redimindo e acabando por ser aceite no Novo Céu e na Nova Terra [xl][40] .
Na segunda parte Max Heindel vê o papel de Fausto na corte do Imperador como um factor importante nos assuntos de estado para os quais
os filhos de Caim têm uma inclinação natural, enquanto os filhos de Seth a têm para os assuntos da igreja [xli][41].
O episódio do homúnculo, omitido por Max Heindel, parece-me ilustrar o valor da perseverança na busca de conhecimentos, perseverança
essa que Goethe enaltece ao pôr na boca de anjos a seguinte fala:
“Pois só àquele redenção damos
Que em esforço persevera”(11936 e 11937)
Ora Wagner, o discípulo de Fausto, não seguiu a via diabólica do seu mestre,
antes perseverou no esforço de chegar à verdadeira Sabedoria pela via correcta, a única que permite o crescimento anímico, e a sua
recompensa foi o êxito que obteve com a criação de um homúnculo, não um grosseiro e estúpido golem, mas um ser capaz de ouvir os conselhos
dos antigos filósofos e de obter o que lhe faltava para ser um homem verdadeiro. Wagner ultrapassou, assim, o seu mestre [xlii][42].
Por outro lado, a figura do homúnculo pode, também, querer dizer que a via do homem que busca a luz, através de um novo nascimento,
se encontra em si mesmo e que tem de dar a mão ao seu anima para a encontrar.
Quanto aos ideais relativos a um novo paraíso terreno que Fausto passou a acalentar, Max Heindel atribui-os ao “amor de (...) Helena, (...) um amor de natureza mais elevada e espiritual e inteiramente separado da ideia de sexo e paixão [xliii][43] .
Confesso a minha dificuldade em acompanhar esta leitura, pois vejo Helena como representando a beleza clássica, mas também
a sensualidade não reprimida do mundo grego, que lhe permite ter relações sexuais com numerosos homens, incluindo Aquiles, que veio
da terra dos mortos para a possuir [xliv][44], um mundo onde Mefistófeles não pode exercer os seus malefícios porque ali não
existe o sentimento do pecado. Assim, vejo a ligação de Fausto com Helena como o primeiro factor positivo da sua vida após o pacto
diabólico por ser incólume ao poder diabólico.
Por fim, penso que Margarida haja sido o
segundo e decisivo factor positivo, pois foi ela, livre de Mefistófeles e já redimida dos seus erros, quem intercedeu junto da Grande
Deusa Mãe, Maria, para salvar o seu amado Fausto, cujos erros tinham sido, entretanto, pagos com o sofrimento e com os ideais humanitaristas
que nortearam os últimos anos da sua existência.
***
Em suma, Faust eine Tragödie é um drama alquímico-espiritual cuja acção se desenrola ao longo da transmutação do homem comum num ser superior, tendo como protagonista a figura mitificada do Doutor Johann Faust.
Fausto passa por várias transmutações. A primeira, que se insere no movimento literário e romântico Stürm und Drang [xlv][45], de que Goethe foi uma figura de primeiro plano, è a obtenção do conhecimento, o “virar-se” para dentro de si mesmo em busca das respostas/soluções para os problemas existenciais. A segunda transmutação é o amor, que Fausto, rejuvenescido por Mefistófeles, sente por Margarida. A terceira é a do arrependimento, do remorso por ser o responsável pela morte da jovem, da sua mãe e do seu irmão. A última transmutação é o sentimento de humanitarismo que o invade e o leva a sonhar com um país novo, paradisíaco, onde haja, apenas, felicidade, aquela que pode chamar a atenção das Potências Celestiais.
Mas a Alquimia do Fausto foca outro aspecto.
Na câmara gótica onde Fausto passou toda uma vida em busca do conhecimento e de onde saiu na companhia de Mefistófeles, o seu fâmulo,
Wagner, sem qualquer auxílio demoníaco, prosseguiu os estudos e conseguiu criar um Homúnculo [xlvi][46] . Com esta figura Goethe
mostra que é dentro de nós que se encontra a via que conduz à iluminação espiritual, mas que para a seguir é necessário aceitar-se
a componente feminina do nosso ser, a famosa anima de Jung [xlvii][47] . É muito significativo o facto de Fausto estar inconsciente
ou ausente em todas as cenas em que aparece o Homúnculo; é o desprezo pelo seu lado feminino e a sua
opção pela via diabólica que lhe levanta todas as dificuldades, mas que no final o seu humanitarismo permitiu-lhe vencer.
António Monteiro
Março
2009
[xxviii] [28] In No Túmulo de Christian Rosenkreutz, in Rosea Cruz, Lisboa, Edições Manuel Lencastre, 1989, p .239.
[xxix] [29] Misterios de las Grandes Operas, pp. 8-9.
[xxx] [30] Cf. versos 371 e 372
[xxxi] [31] Cf. versos 377 a 379
[xxxii] [32] Ob. cit. p. 26
[xxxiii] [33] ]
[xxxiv] [34]
[xxxv] [35] Cf. v. 1740
[xxxvi] [36]
[xxxvii] [37]
[xxxviii] [38] Cf. vv 2839 e 2840
[xxxix] [39] Cf. vv 11035 e 11038
[xl] [40] Misterios de las Grandes Operas, p. 54
[xli] [41] Ibid.
[xlii] [42] Cf. vv 2839 e 2840
[xliii] [43] Misterios de las Grandes Operas , p. 55
[xliv] [44] Cf. vv 8846 a 9058
[xlv] [45] Stürm und Drang (tempestade e ímpeto) foi um movimento que floresceu na Alemanha entre 1770 e 1784, contra o racionalismo postulado pelo Iluminismo do século XVIII e a poderosa influência do classicismo francês na cultura europeia. Os prosélitos deste movimento rejeitaram a literatura e a sociedade do Ancien Regime e voltaram-se para a poesia de Homero, para a Bíblia luterana e para os contos e histórias do folclore nacional nórdico. As personagens mais notáveis deste movimento foram Johann Gottfried Herder (1744 - 1803), Friedrich Schiller (1759-1805) e, naturalmente, Goethe, autor do primeiro grande drama saído do Stürm und Drang, Götz von Berlichingen mit der Eisernen Hand (Götz de Berlichingen com a Mão de Ferro) (1773).
[xlvi] [46] O conceito do homúnculo parece ter sido usado pela primeira vez por Paracelso para designar uma criatura que tinha cerca de 30 cent+imetros de altura e que, segundo ele, poderia ser criada por meio de sémen humano posto numa retorta hermeticamente fechada e aquecida em esterco de cavalo durante 40 dias, após o que se formaria o embrião..
[xlvii] [47]
Carl Gustav Jung (1875-1961), o criador da psicologia analítica, foi um dos mais prestigiados psiquiatras e um profundo conhecedor
do Ocultismo, nomeadamente da Alquimia espiritualista, da Astrologia e do Simbolismo, sendo por vezes apontado como um possível iniciado
da Rosacruz.