I
Quem ler os Evangelhos Canónicos com algum sentido crítico não deixará de se surpreender
com as diferenças, contradições e até absurdos que vai encontrando em todos os textos.
A primeira surpresa será o facto
das genealogias de Jesus traçadas por Mateus (Mt 1, 2-16) e por Lucas (Lc 3, 23-38) serem diferentes: enquanto o primeiro começa em
Abraão, o segundo ascende ao próprio Deus; a seguir a David, Mateus diz que Jesus descende de Salomão, enquanto Lucas diz que descende
de Nathan; pelo meio ficam diversos antepassados com nomes bem diferentes. Esta desigualdade tem sido uma dor de cabeça para os exegetas
e as soluções que têm avançado não são muito convincentes.
A surpresa seguinte serão três episódios
somente contados por Mateus: a visita dos Magos (Mt 2, 1) guiados pela chamada Estrela de Belém (Mt 2, 2), a fuga para o Egipto (Mt
2, 13-15) e, sobretudo, a matança dos inocentes (Mt 2, 16); nenhum dos outros evangelistas os refere! Aliás, nenhum historiador profano
da época fala de uma “matança de inocentes”, o que não poderia deixar de fazer se tão hediondo crime tivesse realmente acontecido.
Marcos diz que Jesus foi crucificado no dia a seguir à ceia da Páscoa (Mc 14, 12, 15 e 25), mas João diz que foi no dia anterior (Jo
19, 14) e daí o facto de não se referir à Última Ceia nem a Eucaristia, ao contrário dos outros evangelistas.
Nem Mateus nem João falam da Ascensão de Cristo aos céus, um dogma fundamental da Igreja citado, apenas, por Marcos (Mc 16, 19) e
Lucas (Lc 24, 51). Mas até Lucas se contradiz: enquanto no evangelho situa a data da Ascensão no dia da Ressurreição (Lc 24), em Actos
de Apóstolos, de que é autor, diz que ocorreu quarenta dias depois (Ac 1, 3)!
Outra surpresa será, por certo,
o Evangelho de João; enquanto se pode estabelecer um certo paralelismo entre os três primeiros, e daí a sua designação de sinópticos,
o último fica totalmente de fora. João é o único que situa o seu texto num âmbito cósmico, que põe toda a ênfase na divindade do Cristo
e não no aspecto humano de Jesus, pelo que não levanta árvores genealógicas nem refere o seu nascimento; João narra episódios que
não constam dos sinópticos, como as conversas de Jesus com Nicodemus e com a samaritana, e não cita uma única parábola como fazem
os outros evangelistas que privilegiam esta forma de ensinamentos. E vai mais longe ao desenvolver o enigmático tema do Paracleto
1 (Jo 14, 15-17, Jo 14, 26, Jo 15, 26, Jo 16, 7-8, Jo 16, 13-14, e 1 Jo 2, 1-2), que analiso no
meu artigo Christian Rosenkreuz – Um
Estudo Biográfico.
Para além destas divergências, que
se compreenderão se se considerar a sua verdadeira natureza, todos os evangelhos apresentam erros de tradução e sobretudo de cópia,
alguns por certo fortuitos, mas outros intencionais porque havia que salvaguardar passagens da doutrina oficial da Igreja que não
encontram eco nos primitivos textos cristãos. Erros de tradução Um erro clamoroso é o que se lê em Marcos
4, 10-12: 10 Quando se acharam a sós, os que o cercavam e os Doze indagaram dele o sentido da parábola. 11 Ele disse-lhes: A vós é
revelado o mistério do Reino de Deus, mas aos de fora tudo se lhes propõe em parábolas, 12 A fim de que olhando, olhem e não
vejam, e ouvindo, ouçam e não entendam, não suceda que se convertam e sejam perdoados (o sublinhado é meu). Como é evidente,
esta parte final é totalmente absurda. A tradução correcta do versículo 12 é a seguinte: 12. A fim de que olhando, olhem
e não vejam, e ouvindo, ouçam e não entendam, não suceda que voltem sobre os seus passos e se desliguem . 2
Outro erro é a tradução das palavras gregas sarks e monoguenous. Em João lêse: 1, 14 E o Verbo fez-se homem e habitou
entre nós, e nós vimos a Sua glória, glória que Lhe vem do Pai como Filho único cheio de graça e verdade (o sublinhado é meu).
Ora o que na primeira oração está escrito em grego é kai o logos sarks egueneto??cuja tradução não é propriamente a transcrita, mas
sim E a Palavra foi matéria, uma vez que a palavra sarks, que tem sido traduzida como homem, significa matéria, e apenas em sentido
figurado se poderá traduzir como homem, ou carne, mas sempre em oposição a espírito; daí que, na nossa língua, matéria me pareça
o termo mais adequado.
Outra errada tradução é a de monoguenous como Filho único; esta palavra
significa uma só origem, no sentido de gerado por um só ser, o que, em boa verdade, corresponde muito melhor à imagem do Ser Supremo
a emanar, ou gerar, o Verbo, ou a Palavra, do que a gerar um filho único.
Celso (sec. II), um opositor do Cristianismo,
disse que Alguns crentes, como se estivessem alcoolizados, vão ao ponto de se opor a si próprios e alteram o texto do Evangelho
três ou quatro vezes, mudando o seu carácter para lhes permitir negar dificuldades perante as críticas.
João, prevendo a possibilidade de os copistas alterarem o texto, teve o cuidado de no final do Apocalipse lançar uma terrível imprecação:
Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus
fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará
a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro (Ap 22, 1819).
Erros
das cópias
A situação agrava-se quando, ao longo de mais de dezasseis séculos, se foram fazendo cópias
sobre cópias onde o erro humano era inevitável. Já Séneca (4 aC-65 AD) dizia que muitas vezes se rasgavam manuscritos por estarem
cheios de erros (Da Ira), e Orígenes (185-254) disse que As diferenças entre os manuscritos [do Novo Testamento] tornaram-se
muito grandes, ou pela negligência de muitos copistas, ou pela audácia perversa de outros; ou negligenciaram verificar o que transcreveram,
ou então fizeram adições e cortes como lhes apeteceu.
O exemplo clássico de um acrescento é o
episódio da mulher adúltera, constante do Evangelho de João (Jo 8, 3-11). Trata-se de uma história muito comentada durante a tradição
oral do ministério de Cristo e que se admite que um copista a tenha referido à margem do manuscrito, mas um outro tenha achado por
bem inseri-la no corpo do evangelho; daí o facto de haver um manuscrito onde este episódio vem a seguir a Lucas 21, 38! Por outro
lado, em João parece deslocada e é omissa quanto ao homem com quem a mulher cometeu adultério o qual, pela lei de Moisés, deveria
ser igualmente apedrejado (Levítico 20, 10).
Outro provável acrescento é todo o capítulo 21 do Evangelho
de João, o qual terminaria com a afirmação de que Fez Jesus, na presença dos seus discípulos, ainda muitos outros milagres
que não estão escritos neste livro, Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que,
crendo, tenhais a vida em seu nome (Jo 21, 30-31. Todos os outros 25 versículos que se seguem parecem espúrios.
Outro acrescento terá sido os versículos 17 e 18 do último capítulo do Evangelho de Marcos, os quais não constam dos manuscritos mais
antigos. Em contrapartida houve seguramente cortes nas cópias mais antigas.
Por exemplo, em Marcos
10, 46 diz-se que Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os Seus discípulos e uma grande multidão...etc. É evidente que
este versículo está truncado, até porque Mateus e Lucas, ao relatarem o mesmo episódio, explicam detalhadamente o que se passou
em Jericó (Mt 20, 29-34 e Lc 19, 1-28); curiosamente, com o Evangelho Secreto de Marcos ficamos a saber que o evangelista quis referir
qualquer coisa relacionada com a “ressurreição” do jovem de Betãnia, mas omitiu-a, limitando-se a dizer E a irmã do jovem que Jesus
amava [Lázaro] e sua mãe e Salomé estavam ali [em Jericó], e Jesus não as recebeu.
Erros acidentais
Muitos erros terão sido causados por cansaço ou distracção. Um erro frequente é o periblesis (salto dos olhos) provocado por
homoeoteleuton (finais iguais), ou seja, quando duas linhas terminam com a mesma palavra, o copista, ao acabar de copiar a primeira
linha, volta a olhar, lê na segunda linha a palavra que acabara de escrever e prossegue com a terceira linha sem notar que omitiu
a precedente. Por exemplo, em Lucas 12, 8-10 diz-se: 8 Digo-vos: todo o que me reconhecer diante dos homens, também o Filho do Homem
o reconhecerá diante dos anjos de Deus; 9 mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. 10 Todo aquele
que tiver falado contra o Filho do Homem obterá perdão ... etc.
Porém, num dos mais antigos manuscritos vem: Digo-vos: todo o que
me reconhecer diante dos homens, também o Filho do Homem o reconhecerá diante dos anjos de Deus; Todo aquele que tiver falado contra
o Filho do Homem obterá perdão ... etc. (à data ainda os textos não tinham sido divididos em capítulos e versículos).
Neste caso,
o copista confundiu o final da primeira linha com o final da segunda e omitiu a passagem relativa ao versículo 9.
Há, porém, erros desastrosos. Em João 17, 15, Jesus ao orar a Deus pede-lhe pelos seus seguidores: Não vos peço que os afasteis do
mundo, mas que os afasteis do maligno; no Códice Vaticano do sec. IV, o copista confundiu as duas palavras afasteis e escreveu Não
vos peço que os afasteis do maligno.
Outros erros são risíveis. Num velho manuscrito do Evangelho de
Lucas a genealogia de Jesus vem exposta em duas colunas, uma com mais linhas do que a outra. O copista, em vez de copiar uma coluna
e depois a outra, copiou a primeira linha, depois a segunda e assim sucessivamente; daqui resultou que o pai da raça humana
é um homem chamado Farés (Lc 3, 33) e que o próprio Deus é filho de Arão (Lc 3, 33)! Tipificados que foram os erros
de que sofrem muitas cópias dos evangelhos, vejamos agora as sua verdadeira natureza a fim de se compreenderem as diferenças que apresentam
entre si.
II
Ao longo dos primeiros tempos da nossa era foram-se formando igrejas
cristãs em todo o Império Romano, onde se praticavam diversas religiões pagãs com os seus ritos iniciáticos secretos, sendo
dominantes o culto de Ísis e principalmente o de Mitra.
Ísis era a filha primogénita de Geb, deus da Terra, e de Nut, deusa
da Abóboda Celeste, também pais de Osíris, Nephthys e Set. Os antigos egípcios veneravam-na como o paradigma de mãe e esposa,
mas também como padroeira da natureza e da magia, protectora de escravos, pecadores e oprimidos. Ísis desposou o seu irmão Osíris
e teve um filho, Hórus. Porém, antes do seu nascimento Set matou Osíris por intrincados motivos passionais que envolveram a jovem
Nephthys e Osíris. Depois de dar à luz Hórus. Ísis recorreu à Magia para ressuscitar o seu irmão e marido, e para salvar o filho da
ira de Set.
O seu culto chegou ao mundo grego nos finais do século IV a.C., onde Isis foi identificada com
Deméter, e nos finais do século I a.C. ao Império Romano, onde rivalizava com Ceres. Porém, os seus ritos começaram a perder popularidade
quando a classe dominante os considerou obscenos e susceptíveis de minar a moral romana, mas Calígula (12 AD - 41) recuperou-os neles
participando vestido de mulher. Assim, Ísis tornou-se a principal deusa do mundo mediterrânico até que a Igreja fez decrescer o seu culto
“cristianizando” alguns dos seus ritos e títulos, como Rainha dos Céus, Mãe de Deus ou Theotokos (que transportou Deus), que passaram
a designar a Virgem Maria. Mas o Cristianismo não conseguiu exterminar o culto de Ísis, que ainda hoje é prestado por movimentos
espiritualistas neo-pagãos, como a Wicca, e divulgado pela Fraternidade de Ísis, criada em 1976, na Irlanda, por Lady Olivia Robertson,
Lawrence e Pamela Durdin-Robertson.
Dos seus mistérios sabe-se que o processo iniciático passava pela transmutação
alquímica das forças espirituais. Na profundeza do espírito repousa um ser humano diferente, divino, ao qual se apelava como se apela
às forças interiores da Terra. O discípulo procurava vencer o amor-próprio, o egoísmo e cultivar o sentimento de amor para com todos
os seres humanos e todas as entidades; entretanto tomava conhecimento das terríveis e grandiosas forcas naturais, para depois inspirar,
para dentro da alma, a grandeza do pensamento universal, tornando-a forte e corajosa.
Mitra era um deus solar,
salvador do mundo, que nasceu no Solstício do Inverno, filho de uma virgem, Anahita, e que morreu crucificado no equinócio da
Primavera. O seu culto surgiu na Pérsia por volta do ano 400 a.C., espalhou-se para Ocidente e chegou ao Império Romano em meados
do século I a.C., onde lhe foi acrescentado um mito cósmico, o do sacrifício de um touro 3 , tendo sido adoptado pelos legionários
que assim procuravam a protecção dos deuses nos campos de batalha ou, se morriam, no além; daí que, em 303 A. D., o imperador
Diocleciano (245-313), antigo militar, tenha declarado o deus Mitra Sol Invictus, Protector do Império Romano.
Nos mistérios mitraicos ensinava-se a evolução do Universo e o destino da humanidade, desenrolando-se as cerimónias no secretismo
de caves e grutas. A admissão à Militia Mitræ, que lutava contra Ahriman, o Mal e a Morte, era feita baptizando o candidato com sangue
de um touro, após o que o grão-pontífice fazia o sinal da cruz na sua fronte; seguia-se a comunhão com pão e vinho, segundo
uns, ou pão e água, segundo outros, abrindo-se, então, ao neófito uma via iniciática com sete passos que lhe iam conferindo, sucessivamente,
os títulos de Corax (corvo), Nymphus (noivo), Miles (soldado), Leo (leão), Peres (persa), Heliodromus (curso solar) e Pater (pai),
passos esses que se encontravam sob a protecção dos sete astros então conhecidos, Mercúrio, Véus, Marte, Júpiter, Lua, Sol e Saturno,
respectivamente.
Estes cultos e outros que os antecederam, tinham muito em comum com o Cristianismo nascente;
já Paulo, na sua carta aos Efésios, escrevera Por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o
qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos apóstolos
e profetas. (Ef 3, 4 e 5), e Santo Agostinho (354-430) afirmou, em 428, que (...) o que hoje se denomina religião cristã existia
na antiguidade e desde a origem do género humano até que Cristo se encarnou, e é dele que a verdadeira religião que já existia começou
a chamar-se cristã (...) 4 . E, de facto, aquilo que fluía do Universo e aflorava a alma, como se ensinava nos mistérios, iria descer
sobre a nossa evolução terrestre como divindade universal: o Cristo.
Foi com estas religiões e mistérios
que as primitivas igrejas tiveram de lidar, e fizeram-no de forma inteligente ao adoptarem, com naturalidade, muitas das suas crenças,
mitos e práticas ritualistas, até que nos finais do século IV o Cristianismo se tornou suficientemente forte para substituir Ísis
e Mitra por Jesus.
A Igreja tem de agradecer este ascendente ao imperador pagão Constantino,
o Grande (c. 272-337), o qual, tendo em vista garantir a unidade do seu império que ameaçava fragmentar-se, promulgou em 313
o Édito de Milão, pelo qual o Cristianismo foi reconhecido como uma das religiões autorizadas no Império Romano, e converteuse
à nova fé no leito de morte. Mas a religião que o imperador promoveu era uma mescla de Cristianismo e Paganismo, já que em muitas
regiões prosseguiam os cultos pagãos tradicionais que nem o primeiro concílio ecuménico, realizado em 325 em Niceia, conseguiu extinguir.
O “golpe de misericórdia” em Ísis e em Mitra foi desferido em 380 por Teodósio, o Grande (c. 346-395), ao elevar o Cristianismo a
religião oficial do Império Romano e estabelecer a pena de morte para os seguidores das seitas heréticas extremistas.
I
I I
Para falar sobre Jesus e pregar os seus ensinamentos, as primeiras igrejas basearam-se
na tradição oral, mas logo que apareceram os primeiros documentos escritos 5 foram adoptando-os, porém segundo critérios
muito díspares, o que, a partir dos finais do século I, deu origem ao aparecimento de correntes de pensamento que mais tarde iriam
ser consideradas heréticas, como o Gnosticismo, Arianismo, Donatismo e outras. Muitos desses primitivos textos perderam-se, enquanto
outros chegaram ao nosso conhecimento apenas por terem sido citados por autores eclesiásticos a fim de os refutarem, sendo de destacar,
neste campo, Ireneu (140 - 202), bispo de Lion, e a sua famosa obra Contra as Heresias.
Esta falta
de unidade doutrinária cedo começou a preocupar as figuras de destaque do Cristianismo, como Ireneu, que defendeu a existência de
quatro evangelhos, nem um a mais nem um a menos 6 ; porém, a pluralidade de critérios somente iria terminar com a definição do cânone
do Novo Testamento estabelecido no Sínodo de Roma (382) e nos concílios de Hipona (393) e de Cartago (397).
Conta a tradição que a escolha dos evangelhos verdadeiros foi feita por eleição milagrosa. Depois dos bispos terem rezado muito, quatro
dos numerosos textos apresentados voaram por si sós e foram poisar sobre um altar; a seguir, os bispos puseram todos os textos sobre
esse altar e os que iriam ser considerados apócrifos caíram no chão, enquanto aqueles quatro permaneceram imóveis; depois, pediram
a Deus que, caso nestes quatro evangelhos houvesse alguma palavra falsa, os fizesse tombar, o que não sucedeu; finalmente, o Espírito
Santo entrou na sala do concílio sob a forma de pomba e, poisando no ombro de cada um dos bispos, foi-lhes sussurrando ao ouvido os
títulos dos evangelhos autênticos e dos falsos. Certamente que alguns dos prelados eram surdos, pois os quatro evangelhos canónicos
foram aprovados... mas não por unanimidade.
Penso que a escolha destes evangelhos nada teve a ver com rezas
episcopais nem visitas columbinas, mas com outra realidade bem diferente. Não conheço as actas do sínodo e dos concílios em causa,
mas admito que os participantes, ao discutir este problema, tenham começado por separar todos os escritos em três categorias:
? os que não passavam de piedosas fábulas ou historietas infantis, como o Evangelho do Pseudo-Tomé, o Proto-Evangelho de Tiago,
História de José, o Carpinteiro, a Epístola do rei Abgaro a Jesus e a Epístola de Jesus ao rei Abgaro, e outros;
? os
que não podiam ser dados a conhecer às massas e tinham de ficar secretos, reservados apenas a iniciados, isto é, apócrifos, pois é
este o significado literal deste termo grego; nesta categoria terão ficado todos os textos gnósticos, nomeadamente os que séculos
depois iriam ficar conhecidos como Biblioteca de Nag Hammadi, como o célebre Evangelho de Tomé, Pistis Sophia, Evangelho de Filipe,
etc. 7 ;
? os que podiam e deviam ser dados a conhecer às massas, nos quais as passagens apócrifas eram dissimuladas por metáforas
e alegorias; nesta categoria ficaram apenas quatro evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João, respeitando-se, assim, a opinião do influente
Ireneu, aos quais se juntaram Actos de Apóstoles, vinte e uma epístolas 8 e o Apocalipse, completando-se, assim, o cânone
do Novo Testamento.
Entretanto, algumas igrejas foram cristianizando as escolas de mistérios pagãs
dando assim origem a um Cristianismo esotérico e aos primeiros iniciados cristãos. É o que se depreende, claramente, de diversas passagens
do Novo Testamento, como Marcos 4, 11, já citada, Actos de Apóstolos 1, 3, II Coríntios 12, 1-6, Efésios 3, 3-5, etc.,
bem como de alguns escritos dos Padres da Igreja.
Inácio, bispo de Antioquia (67 - 110 d.C.)
e discípulo do Apóstolo João, diz de si mesmo: Eu não sou ainda perfeito em Jesus Cristo, pois começo agora a ser discípulo e vos
falo como a meus condiscípulos; e refere-se aos seus correspondentes como tendo sido iniciados nos mistérios do Evangelho 9 .
Em Stromata, Clemente de Alexandria (c.150 - c. 215) é mais claro ao dizer O Senhor permitiu comunicarmos estes Mistérios divinos
e esta santa luz aos capazes de os receber, Certamente Ele não revelou à massa o que não pertence à massa. Mas revelou os Mistérios
a uma minoria capaz de os receber e concordar com eles . Orígenes (c. 185–254), considerado por muitos o mais sábio dos Padres da
Igreja, ao atacar Celso por este ter acusado o Cristianismo de ser um sistema secreto, diz que se certas doutrinas eram secretas,
muitas outras eram públicas, e que este sistema de ensino exotérico e esotérico adoptado pelos cristãos era igualmente usado
pelos filósofos . 11
1 Lucas
teria já feito uma breve referência ao escrever: Eu [Jesus] vos mandarei o Prometido de meu Pai (Lc 24, 49).
2 Este erro está
analisado por António de Macedo em Laboratório Mágico, pp. 68 e 69.
3 Este mito tem a ver com a descoberta do fenómeno
da precessão dos equinócios, feita por volta de 128 a.C. pelo célebre astrónomo grego Hiparcos.
4 In Les Rétractations,
Livre Premier, Chapitre XXX, 3 (…) ce qui se nomme aujourd’hui religion chrètienne, existait dans l’antiquitè et dés l’origine du
genre humain jusqu’â ce que le Christ s’incarnãt, et c’est de lui que la vraie religion qui existait dèjâ, commença â s’appeler chrétienne
(…).
5 As Cartas de Paulo
e o Evangelho de Marcos foram os primeiros textos de entre os que iriam ser considerados canónicos.
6 Cf. Against Heresies,
Book III, Chapter XI, nº 8.
7 Sobre
os apócrifos, cf. The Apocryphal New Testament, Les Evangiles Apocryphes, bem como diversos sites na Internet. A Biblioteca
de Nag Hammadi é um conjunto de cinquenta e dois tratados, na sua maioria gnósticos, quarenta dos quais eram desconhecidos, e que
foram encontrados em 1945 numa gruta nas proximidades de Nag Hammadi, no Egipto. Os tratados são traduções do grego para copta feitas
no século IV, provavelmente por monges de um mosteiro situado a cerca de cinco quilómetros da gruta.
8 14 são atribuídas
a Paulo, embora apenas 7 sejam, seguramente, da sua autoria, 1 de Tiago, 2 de Pedro, 3 de João e 1 de Judas Tadeu.
9 Martírio
de Inácio, Cap.X e Epístola de Inácio aos Efésios,Cap. XII,citados em O Cristianismo Esotérico, p.48
10 Stromata
I, vol. IV, Cap. XXVIII, citado em O Cristianismo Esotérico, p. 50.
11 In Contra Celso, citado em O Cristianismo Esotérico,
p. 57.